A Curva da Solução
Aprendendo com o mar: o caminho mais curto nem sempre é uma reta.
O sol hoje foi discreto, ficou resguardado atrás das nuvens e só apareceu brevemente às 18h. Mas o vento, esse não falhou. E a sensação aqui dentro é de uma companhia constante. Ele entra pelas gaiutas, circula a cabine e faz uma música grave, desenhando a forma do Niskua no ar. É uma trilha sonora que me ajuda a focar. Sou eu, Lucas, 35 anos, navegando por linhas de código e arquiteturas de produto. Apenas a atenção necessária para desenvolver a estrutura, sólida, enquanto o barco respira na âncora.
Tudo é ritmo e construção, até que uma voz humana corta o som do vento: “Hola! Hola!”. É um Guna na sua canoa, segurando a borda do meu barco. Ele levanta uma lagosta enorme, viva, oferecendo a pesca. Eu olho para o bicho, olho para ele e respondo em espanhol: “No, gracias, amigo. Hoy no.” Ele sorri, aceita, e me estende um celular velho: “Cargar celular?”. Eu pego, conecto no carregador, faço um sinal de positivo e ele rema para longe, avisando que volta mais tarde.
Fico olhando ele se afastar, e é no rastro daquele barquinho pequeno voltando para o mar aberto que eu sinto a mágica acontecer. Até a canoa não segue uma linha reta perfeita: ela negocia com o balanço, ela cede para avançar. E, ao acompanhar esse movimento, percebo que meus ombros desceram sem eu notar e aquela tensão silenciosa que sustentava o foco começa a se desmontar junto dos enigmas, devagar, peça por peça, em alívio estrutural, e a mente simplesmente repousa sobre uma solução. Vu-a-lá!
Até que ouço a madeira bater no casco de novo. “Hola!”. Ele voltou. O celular está em 100%. Entrego o aparelho, ele agradece e vai embora remando. Eu olho para a minha tela e respiro fundo. A bateria dele está cheia, e a minha lógica, agora ventilada, está pronta. Eu me ajeito no sofá. Estou aqui, presente. Sou o Lucas, e com esse equilíbrio, tudo se resolve.

